sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Evocação de Francisco Matias


Francisco André Esteves Matias: 2 anos de saudade (16-3-2009)
Missa celebrada pelo Sr. Padre Alberto, no dia 16 de Março, às 19 horas, na Igreja Matriz de Tolosa
Juntemo-nos e rezemos por este Grande Amigo, que partiu antes de nós. A família agradece a quem se digne participar.
Apesar de já não estar entre nós,
não O vamos esquecer,
por isso peço agora a vós,
para a corrente não romper.

Uma pessoa alegre e bem disposta,
teve um final trágico que não merecia,
faleceu e agora não temos resposta,
para tudo o que se evidencia.

Deixou cá muitos amigos,
que estão tristes e a sofrer,
pessoas que o adoravam,
e que não o queriam perder.

Agora já não está connosco,
não há nada que o possa trazê-lo,
está dentro de nós para sempre,
até porque é impossível esquecê-lo.

Faleceu a fazer o que gostava,
embora não merece-se,
perguntamos todos onde "DEUS" estava,
quando deixou que tudo acontece-se.

Francisco é o seu nome,
e será para sempre recordado,
pelos amigos e família,
um rapaz por todos adorado!!!

Vamos passar a mensagem por todos os seus amigos,
e não vamos deixar que FRANCISCO seja esquecido!!!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Tolosa na recolha etnográfica de Leite de Vasconcelos (2)

 Leite de Vasconcelos, um dos maiores etnógrafos e arqueólogos portugueses andou pelas terras da Corte das Areias e fez de Tolosa, por diversas vezes, o seu "poiso" habitual. Não admira, pois, as inúmeras referências a esta vila, nas principais obras do autor, como são a Etnografia Portuguesa (10 volumes) e Terras da Lusitânia.
Neste espaço iremos transcrever algumas das prosas, deliciosas sobre costumes locais,tradições rurais, etc.
O COBRO
(...) Pensamos que é ainda esta mesma moléstia do bicho aquela que em Nisa, Tolosa, Montemor-o-Novo e Alandroal chamam cobro.
Em Tolosa, o autor, obteve informação de pormenor de uma mulher de uns 70 anos, de nome Vicência Josefa da Conceição, que era benzedeira. Tudo fazia com grande fé, citando, regalada, curas que praticava. Segue a notícia: aparecem empolas num sítio do corpo e outras surgem, depois, seguindo a mesma endireitura. As empolas têm aguadilha; vermelhas em baixo e em cima há um biquinho branco. Dão comichão e agonias ou ânsias. Pode haver febre; não há contágio. É um nascido. Se o cobro une o rabo com a cabeça, a pessoa pode morrer: por isso é preciso acudir-lhe logo. Tratamento: quem o cura é geralmente uma mulher idosa, mas também pode curá-lo um homem. O caso é qualquer deles ter sabedoria para isso.
A operação chama-se cortar o cobro. Pega-se numa tesoura aberta por cima da parte doente e faz-se menção de  cortar as empolas, encostada a tesoura a estas, e diz a curadeira dos nascidos ou o benzelhão:
Eu te corto, cobro / cabeça, rabo e corpo todo.
Quer o acto de fazer que se corta, quer a recitação das palavras, é por três vezes. Isto é, o cobro é cortado três vezes. Passada meia hora, dada pelo relógio (para o cobro atrasar, isto é, para não ir por diante) benze-se duas vezes com o dedo indicador da mão direita, fazendo cruzes com ela por cima do próprio nascido, e dizendo:
Eu te benzo, cobro / cabeça, rabo e corpo todo, também duas vezes. Ao todo cinco vezes (duas benzido, e três cortado). Não se reza nada. Vai-se fazendo isto duas vezes por dia, de manhã e à tarde, até o doente sarar. Para resguardar o nascido, envolve-se com um pano fino, e o doente deve evitar apanhar sol e não coçar. É o que em medicina se chama zona.
Ainda em Tolosa, aonde o autor ia com alguma frequência, lhe foi dito que havia quem iniciasse a operação com as palavras: " Em louvor de Nossa Senhora, obre aqui o teu divino milagre". Além do ensalmo, untavam outros, com mel, a parte doente, espalhando por cima uma pouca de cinza de palhas de alhos.

Versos de Tolosa (jocosos) a respeito do nascimento de crianças
Assenta-te, senhora comadre
Muito bem nessa cadeira
Está a espreitar o rato
Que há-de vir da ratoeira.
Se for macho há-de ser frade
Se for fêmea há-se ser freira!
E, se não trouxer cabelo,
Faz-se-lhe uma cabeleira.

Cuidados após o nascimento
Logo que nasça a criança, a mãe dá graças a Deus, de satisfeita. A parteira ou quem assista à parida esfrega a criança com azeite e um trapo de lã assim que nasce. Lava-a depois em água com um trapo de linho e sabão e dá-lhe um banho ou dois em água morna. A mãe levanta-se normalmente da cama ao 3º ou 4º dia e é quem lhe assiste. Lava-a diariamente; depois de enxuta, deita-a no colo, de bruços para a vestir. Primeiro põe-lhe a fralda (um pedaço de pano cru e abainhado) sobre as nalgas e as perninhas, destinada a apanhar a
urina e as fezes; depois um cueiro branco e um de cor, de flanela, sarja, lã, etc., também da cinta para baixo, destinados a agasalharem a criança; em seguida faz-lhe uma cruz nas costas com o bordo externo da mão direita, volta-a, enliga-a ou enrola-a na fralda e cueiros, apertando tudo bem apertado com um apertador, tira forte de pano de lã, de veludo forrado de riscado, etc.. Se chove, dá-se-lhe a maminha; se não vai para o berço. Faz isso todos os dias até que substituem os cueiros por vestido de curto (vestir de curto), continuando, porém, a fralda: pelos dois ou três meses. Quando a mãe vai buscar a criancinha ao berço, pela manhã, diz: Deus te salve, luz do dia! / Deus te entregue ao santo ou à santa / De quem for hoje o dia!
Se a criancinha abre a boca, a espreguiçar-se, diz a mãe: Anjo bento, o Espírito Santo / te entre pela boquinha adentro.
Como se tratavam algumas doenças em Tolosa
 Costela partida - Usa-se para a curar um emplastro chamado vime e formado por um pedaço de odre de vinho besuntado com pez.
Dor de Dentes - Para não terem dores de dentes costumavam as pessoas trazer uma linha ao pescoço, na qual se dão cinco nós, escondida sob o fato.
Diarreia - Quem a tem vai a uma trovisqueira, esgaça uma pernada e com a folha-gorra que se solta do tronquinho, ata a perna; anda assim até que a diarreia, ali caganeira, passe, o que pode levar dias.
Doenças dos olhos - Em Tolosa metem a pálpebra inferior debaixo da superior ou ao invés e dizem: "Algueirinho, algueirinho / vai para o teu palheirinho; Que está lá uma faca de latão / Que corta o teu coração".
Belidas - São cicatrizes da córnea. os antigos chamam à belida leve nuvecula e à tensa abbugo. Para a belida e farpão usam em Tolosa esta reza:
Jesus Cristo nascêi
E Virgem concebê
E na testemunha desta verdade
Belida e farpão secarás,
Este olho deixarás em paz!
E um padre-nosso e avé-maria
Em louvor de Santa Maria
Diz-se isto nove vezes e no fim o padre nosso e avé maria: "oferecço este padre-nosso e esta avé-maria a Santa Luzia, que nos dê melhoras nos nossos olhos". E durante nove dias a fio, a qualquer hora, e podendo ser duas vezes ou mais ao dia ainda melhor. E fazem-se cruzes sobre o olho doente.
Eripsela - Em Tolosa, uma mulher recitou: Pedro Paulo foi a Roma / Jesus Cristo encontrou/ Jesus Cristo le précurou: / Pedro Paulo, donde vens?/ Morre muita gente do mal d´empola / Pedro Paulo, volta atrás / Com esparto benzerás / Co óleo da candeia apagarás / Para trás! Para trás!
Duas vezes de cada vez e em nove dias. Houve quem dissesse esparcho em vez de esparto e azeite em vez de óleo. Era ensalmo que várias mulheres sabiam.
Feridas - Para as curar dão-lhes, em Tolosa, óleo de carvalho que se obtém pondo de infusão em aguardente rebentos ou alhos de carvalho. Dente abrum também se usa para lavar feridas, fervido com água. O dente abrum tem a forma de banana e só existe nos rios ou ribeiros.
Íngua e rotura - Em Tolosa, concelho de Nisa, cortam-se, dizendo:
Eu te corto, íngua
Com mão de Deus e da Virgem Maria
Deus tudo dá, tudo tira.
Pronuncia-se o ensalmo nove vezes, em cruz, com uma faca na mão, sobre a íngua, como quem corta.
Doença da Lua - Em Tolosa, pensa-se que a fase da lua mais perigosa é o quarto crescente.
E causa quebranto dando de frente na cara. E este tanto dá em adultos como nas crianças, sendo pior naqueles. São sintomas o espreguiçamento, vómitos, bocejos, dores de cabeça, palidez; nas crianças, fezes verdes (enterite). Para diagnosticar o mal, deita-se água num prato, benze-se com a mão aberta, posta de cutelo, cinco vezes, no ar e diz-se também cinco vezes:
Lua santa pro qui passô
Fermesura de F. (...) levô.
A dela luvará / A sua dêxará
Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo
Dês te tire este cobranto.
À medida que diz a reza vai fazendo cruzes alternadamente sobre o prato e sobre a pessoa que está ali ao pé. Molha-se, depois, o dedo môrinho (mínimo) em uma lamparina candeia ou candeeiro, isto é, em cousa que se acenda, e deitam-se cinco pingos de água, para se ver se a doença é quebranto; sendo, o azeite espalha-se todo (nem se conhece, às vezes, onde se deitou os pingos); não sendo, os pingos não se espalham.
No caso de quebranto deita-se a água para trás do lume, para trás do madeiro que arde na lareira para se queimarem os pingos, porque, se se deitasse à rua, apanhava o quebranto a pessoa que pisasse a água.
Se a benzedeira se chamar Maria, tem mais virtude. Há quem deite no prato nove pingos de azeite, três de cada vez, quem diga a reza três vezes e até nove vezes e, neste último caso, pode dizê-la em nove dias. Variante das fórmulas:
a) Uma to dê / Três to hão-de tirar
São as pessoas da Santíssima Trindade
Uma santa por aqui passô
Fermesura de F. (...) ou F (...) levô.
Tornará a passar,
A fermesura de F. (...) deixará / E a dele levará
 b) Lua santa por aqui passô,
Formosura de F. (...) levou.
E tornará a passar / E a formosura deixará
Nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo!
Nosso Senhor te tire este quebranto.
 Quando uma criança nasce, põe-se-lhe ao pescoço meia lua de prata para evitar quebranto da lua. Disse-me também que a meia lua deve ser de aroeira macha. Põe-se igualmente na testa das bestas para evitar quebranto.
Quebranto /mau olhado - As pessoas que dão quebranto são as que têm a vista fina, pensa- se em Tolosa. O mau olhado de um homem dura três dias, o da mulher dura menos. São sintomas da doença, dor de cabeça, cansaço, quebramento do corpo. Para se saber se é ou não quebranto, dizem-se as seguintes palavras, cinco vezes:
F. (...) ou F. (...) / Deus te reuniu / Deus te criou,
Deus te livre de quem para ti mal olhou!
Deus te livre deste quebranto:
Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo!
Deitam-se, em seguida, num prato com água pura cinco pingas de azeite da candeia. Se é quebranto, o azeite espalha-se, se não é, as pingas ficam juntas. Sendo quebranto, logo a pessoa começa a melhorar.
O quebranto pode dar-se sem se querer. Contou-se ao autor que uma vez uma mulher estava
a ajudar outra a fazer um licor. A certa altura foi-se embora, dizendo: "A minha vista, hoje, não está boa para encarar vidros", receava que os vidros estalassem. E saiu a tempo de evitar o mal.